Mum

Jovem, elegante, bonita. Estes três adjectivos são os melhores que me é possível encontrar para descrever a senhora a que chamo mãe quando lhe faltava ainda um ano para a tão esperada idade adulta. Adivinho hoje a ansiedade que devia sentir na altura por estar perto de completar dezoito anos, atingir a idade adulta significava atingir uma liberdade de maior dimensão, onde se iria ver os pais a centenas de quilómetros de distância. Conhecendo a personalidade da minha mãe, jogo à sorte com a certeza de ganhar, aos dezassete anos o seu espírito aventureiro era inevitavelmente ainda mais acentuado que hoje em dia.
De olhos tão castanhos com as rochas de uma praia , e que tal como estas, tantas vezes reflectem uma vida tão atacada por ondas revoltas, mas ao mesmo tempo tão resistente.
È dificil descrever a corpulência desta linda rapariga de cabelos de seda tingidos de castanho claro. Com uns brincos compridos que realçavam os olhos e com um típico vestido branco dos anos setenta, o seu sorriso algo forçado tornava-se afável e até mesmo atraente.
Eram notáveis todos os pontinhos castanhos que preenchiam aquelas faces morenas. Sardas, eram sardas pequenas e discretas que conferiam verdadeira autenticidade aquele rosto distraído.
Apesar do ar rebelde, a jovial rapariga transmitia uma sensação de pura serenidade e tranquilidade.
Queria ser educadora de infância, tinha o desejo intimo de lhe ser permitido ajudar os outros de qualquer forma possível, chegou até a considerar a improvável hipótese de ir trabalhar para África, de forma a ajudar os mais necessitados.
Protectora, nunca deixou que ninguém se aproximasse daqueles que lhe eram queridos. O seu sentido de protecção sempre foi muito apurado e esteve sempre activo quando algo que era importante para ela era posto em perigo.
Ainda hoje possui uma força interior inimaginável para ultrapassar os problemas e uma coragem enorme para enfrentar em campo de batalha todos os exércitos que forem precisos enfrentar.
Se fosse uma cidade, seria Londres, devido ao seu clima e aspecto geral oferece a ilusão de que é uma cidade não convidativa e sem muita alegria, no entanto revela-se uma cida surpreendente, forte estruturalmente e enriquecida de cultura.



speak

Acima de tudo, é o medo de falar.. Falar (sem ser obviamente no sentido literal), falar, a grande maioria consegue. Há quem diga até que falar é juntar silabas, é decorar palavras e colocá-las do lado exterior.. Eu não concordo, é preciso muito mais do que é considerado essencial para falar, é precisa muita mais coragem para falar legitimamente, sem apenas juntar silabas e sem sentir o que se diz.. Quem fala por falar, é como quem expõe quadros numa galeria que toda a gente vê mas ninguém observa, é deitar palavras fora, é enfraquecer a voz e não ter nada para dizer.
Não, falar devia ser sentido, devia ser algo que vem do recanto mais fundo da nossa alma, mas não é.. Hoje em dia chega-se ao extremo de se ouvir falar do que nem se tem a certeza, é igual a fazer suposições, suposições tantas vezes falsas e infundadas. È preciso sentir o que se diz para que os outros acreditem nas nossas palavras, é preciso saber o significado e o impacto das palavras que fluem da nossa garganta para que não existam acima de tudo mal entendidos. Existem frases difíceis de dizer, frases que nos enchem os pesadelos de monstros ou os sonhos de autêntica felicidade, mas são essas frases difíceis que conferem autenticidade ao nosso carácter comunicativo. Não é relevante a quantidade de palavras que dizemos ou até mesmo a forma como elas soam, o mais importante é dizê-las de forma sincera, dizê-las de modo a que não sejam desperdiçadas por não possuírem qualquer significado..
Até eu, que estou "cheio de moral" para rabiscar tudo isto, até eu falho, sendo um ser humano por vezes nem eu sei falar, por vezes digo o que digo sem qualquer sentido ou intenção..
Devemos falar mesmo sem ter a certeza dos nossas sentenças, desde que tudo o que dizemos seja sentido no esconderijo mais intimo do nosso ser.
Acima de tudo isto, é a falar que nos entendemos.



do u remember when?

Conseguirias lembrar-te de tudo aquilo que se passou algures no meio de páginas perdidas? Conseguirias dizer palavra a palavra todas as minhas frases? Serias capaz de me dizer o o ano em que foi, o mês, ou até mesmo o dia? Vozes claras diziam que não.. Diziam que já esqueces-te até o mais relevante. O problema com que me debatia é que eu sabia que não. Nada me arrancava do pensamento que não passavam de mentiras escondidas atrás de palavras gastas. Mas como seria possível? Como poderia eu ter a certeza que para ti não tinha sido tudo um engano ou até mesmo um erro? Ninguém me dava garantias, muito menos tu. Agora, logo hoje, neste dia fatídico em que precisava que te lembrasses de cada pormenor, a tua memória falha e não te permite encontrar essas palavras profundamente outrora marcadas. Algo tinha de não estar certo. Tinha de existir uma falha. Tinha de haver falta de algo extremamente necessário, era inevitável, tinha de acabar.

"do you remember when we never had to remember the times we were better than this?"